domingo, 10 de abril de 2011

ANIMAL EM PUTREFAÇÃO




O ANIMAL BÊBADO ESTAVA CAÍDO,
Um corpo no chão ensanguentado.
Na queda, seu dente de ouro quebrou,
Banguela, um animal ferido.
Sem movimentos, animal derrotado.
Sem pensamentos, sua cabeça sangrou.
De olhos abertos, não conseguia ver os ratos.
Os ratos, por perto do seu corpo alimentou.
Ergueu a língua para colher a cachaça que sobrara no rosto.
Cachaça, como sempre insuficiente.
Mas abriu um sorriso porque aquelas gotas ainda tinham o desejado gosto.
Agora, destruído e livre, depois de décadas lacrado nas correntes,
O animal bêbado fraqueja quase morto.
Mas ainda feliz, pois se morrer bêbado, bêbado ficará eternamente.
...
NÃO CONSEGUIA MAIS PENSAR EM VINGANÇA.
Sua garganta não canalizava mais conhaque.
Estava impotente para ficar de pau duro.
Queria sonhar enquanto caído na cama.
Queria que o sangue não derramasse.
Se pudesse, fugiria pulando o muro.
E do outro lado do muro, beberia em outra cidade.
Não sabia que em qualquer lugar do mundo, a vida tem prazo curto.
De olhos abertos, a vista dele falhou.
Sentiu-se novamente um feto, mas desta vez menos bêbado.
De ouvidos atentos, não percebeu que a vitrola tocou.
Por mais lúcido que o conhaque o deixara, não sentira medo.
Por mais louco que vivera, o animal se libertou.
Agora, se pudesse, caminharia apoiado na garrafa e seu mapa seria o vento.
...
CARNE RASGADA EXPONDO A ESTRUTURA ÓSSEA.
Seus punhos não tinham mais forças,
Seu dedo não apontava o culpado.
Sentia a faca nas costas,
Sentia o sangue na boca,
Não sentia mais beijos roubados.
Percebeu cada vez mais células mortas,
Percebeu que seus ossos estavam sendo quebrados.
Viu alguns pés caminhando nas paredes.
Notou-se um sábio quando percebeu que, como previsto, morreria solitário.
Pensou-se imortal quando entendeu que não viveria mais vezes.
Não percebeu que ganhou as apostas do baralho.
O animal naquele estado bruto queria mais aguardente.
Mesmo com força destruidora, sentiu-se um fraco.
...
QUANDO CAIU, QUEBROU UM ESPELHO.
Percebeu que era o fim de seus princípios,
Refletiu com seus milhares de segredos.
Percebeu que o mundo um dia acaba,
Entendeu que a vida é um pano rasgado.
Animal destruído
De poucas palavras,
De sangue espalhado.
Morto, não se sabe onde.
Maldito animal, esquecido e sem nome.
Desgraçado sem vida, sem culpa, sem amor.
Desgraçado sem brilho nos olhos, sem crença no que pode existir.
Sabia que o próprio sangue não regaria as flores que plantou.
Criatura incolor, insípida, infeliz.
Ignorante sobre o caminho de volta para casa, não abriu asas para o voo.
Teve o orgulho de ficar e acender o último cigarro para se despedir.
...
MESMO MORTO, AINDA QUERIA ALGUMA COISA PARA FAZER.
Ainda queria cantar,
Não queria necessariamente viver,
Mas acabou o tempo de amar.
Ainda queria sorrir
E beber mais litros etílicos,
Mas acabou o tempo de existir.
Perdeu a chance de criar seus filhos.
Ainda guardava a ganância de segurar as mulheres e lhes beijar o pescoço.
Mantinha acesa a chama de morder e invadir a carne de todas as meretrizes do mundo.
Vivia a lenda de um velho do pau grande e grosso.
Animal cego, bêbado, estúpido,
Sem dinheiro, sem casa, mas com cicatrizes no rosto.
Depois de morto, consolado, pois não seria mais um infortúnio.
...
CLIENTES MORTOS NÃO PAGAM.
Então, expulso do bar.
Sem extrema-unção para o pagão,
Sem assunto para o defunto falar.
Jogado na rua,
Da rua para o mato.
Não deixou o ordenado para a puta,
Mas havia dinheiro em seu corpo sendo arrastado.
Barba, cabelos brancos e unhas sujas ainda estavam crescendo.
Continuava em profusão, liberando toxinas.
Finalmente suas células vomitavam o que havia por dentro,
Acompanhado por bactérias famintas.
Já que um dia viveu, retribuiu apodrecendo.
Morto, esperando o demônio que se nutre do podre que sai das feridas.
...

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