O ANIMAL BÊBADO ESTAVA
CAÍDO,
Um corpo no chão ensanguentado.
Na queda, seu dente de
ouro quebrou,
Banguela, um animal
ferido.
Sem movimentos, animal
derrotado.
Sem pensamentos, sua
cabeça sangrou.
De olhos abertos, não
conseguia ver os ratos.
Os ratos, por perto do seu
corpo alimentou.
Ergueu a língua para
colher a cachaça que sobrara no rosto.
Cachaça, como sempre
insuficiente.
Mas abriu um sorriso
porque aquelas gotas ainda tinham o desejado gosto.
Agora, destruído e livre,
depois de décadas lacrado nas correntes,
O animal bêbado fraqueja
quase morto.
Mas ainda feliz, pois se
morrer bêbado, bêbado ficará eternamente.
...
NÃO
CONSEGUIA MAIS PENSAR EM VINGANÇA.
Sua
garganta não canalizava mais conhaque.
Estava
impotente para ficar de pau duro.
Queria
sonhar enquanto caído na cama.
Queria
que o sangue não derramasse.
Se
pudesse, fugiria pulando o muro.
E
do outro lado do muro, beberia em outra cidade.
Não
sabia que em qualquer lugar do mundo, a vida tem prazo curto.
De
olhos abertos, a vista dele falhou.
Sentiu-se
novamente um feto, mas desta vez menos bêbado.
De
ouvidos atentos, não percebeu que a vitrola tocou.
Por
mais lúcido que o conhaque o deixara, não sentira medo.
Por
mais louco que vivera, o animal se libertou.
Agora,
se pudesse, caminharia apoiado na garrafa e seu mapa seria o vento.
...
CARNE RASGADA EXPONDO A
ESTRUTURA ÓSSEA.
Seus punhos não tinham
mais forças,
Seu dedo não apontava o
culpado.
Sentia a faca nas costas,
Sentia o sangue na boca,
Não sentia mais beijos roubados.
Percebeu cada vez mais
células mortas,
Percebeu que seus ossos
estavam sendo quebrados.
Viu alguns pés caminhando
nas paredes.
Notou-se um sábio quando
percebeu que, como previsto, morreria solitário.
Pensou-se imortal quando
entendeu que não viveria mais vezes.
Não percebeu que ganhou as
apostas do baralho.
O animal naquele estado
bruto queria mais aguardente.
Mesmo com força
destruidora, sentiu-se um fraco.
...
QUANDO
CAIU, QUEBROU UM ESPELHO.
Percebeu
que era o fim de seus princípios,
Refletiu
com seus milhares de segredos.
Percebeu
que o mundo um dia acaba,
Entendeu
que a vida é um pano rasgado.
Animal
destruído
De
poucas palavras,
De
sangue espalhado.
Morto,
não se sabe onde.
Maldito
animal, esquecido e sem nome.
Desgraçado
sem vida, sem culpa, sem amor.
Desgraçado
sem brilho nos olhos, sem crença no que pode existir.
Sabia
que o próprio sangue não regaria as flores que plantou.
Criatura
incolor, insípida, infeliz.
Ignorante
sobre o caminho de volta para casa, não abriu asas para o voo.
Teve
o orgulho de ficar e acender o último cigarro para se despedir.
...
MESMO MORTO, AINDA QUERIA
ALGUMA COISA PARA FAZER.
Ainda queria cantar,
Não queria necessariamente
viver,
Mas acabou o tempo de
amar.
Ainda queria sorrir
E beber mais litros
etílicos,
Mas acabou o tempo de
existir.
Perdeu a chance de criar
seus filhos.
Ainda guardava a ganância
de segurar as mulheres e lhes beijar o pescoço.
Mantinha acesa a chama de
morder e invadir a carne de todas as meretrizes do mundo.
Vivia a lenda de um velho
do pau grande e grosso.
Animal cego, bêbado,
estúpido,
Sem dinheiro, sem casa,
mas com cicatrizes no rosto.
Depois de morto,
consolado, pois não seria mais um infortúnio.
...
CLIENTES
MORTOS NÃO PAGAM.
Então,
expulso do bar.
Sem
extrema-unção para o pagão,
Sem
assunto para o defunto falar.
Jogado
na rua,
Da
rua para o mato.
Não
deixou o ordenado para a puta,
Mas
havia dinheiro em seu corpo sendo arrastado.
Barba,
cabelos brancos e unhas sujas ainda estavam crescendo.
Continuava
em profusão, liberando toxinas.
Finalmente
suas células vomitavam o que havia por dentro,
Acompanhado
por bactérias famintas.
Já
que um dia viveu, retribuiu apodrecendo.
Morto,
esperando o demônio que se nutre do podre que sai das feridas.
...
Muito foda cara !
ResponderExcluirmuita morte prá tanta poesia
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