sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

HÁBITO NOTURNO

ALGUNS CACHORROS LATEM durante a madrugada. Talvez essa seja a forma deles produzirem seu ato poético. Algumas crianças estão fumando craque durante essa noite gelada, em céu aberto ou dentro de esgotos para no noite seguinte serem matéria de jornal. A chuva afogou o último cigarro de um mendigo. Gatos gritam e agonizam histéricos. Principalmente as fêmeas na hora de foder. A glande dos machos Felis silvestris catus é composta por espículas que florescem durante o ato sexual, causando dor na receptora. Essa agonia é necessária para a reprodução deles. Felinos que rasgam a garganta em agonia. Penso em como seria um blues com esses gritos. Durante uma noite de abstinência poética.
Alguns bares estão fechando suas portas e abrindo a necessidade de expulsar cadáveres alcoolizados. Os olhos, as bocas, a garrafa de café, as pessoas, as pernas, os livros também se fecham. Esta madrugada gela os corpos de quem sobrevive neste espaço-tempo. Alguns corpos ficam tão gelados que jamais voltarão a conter energia cinética novamente.
Há sempre o barulho dos carros. Carros em movimento, motores funcionando, algumas derrapagens, algumas colisões frontais de carros que agora escorrem gasolina e sangue em cima dos jornais. No dia seguinte alguém comenta sobre a morte em quilômetros por hora. Outra pessoa fala:
— Ele me chamou para ir junto, mas preferi ficar em casa.
Poderia ter explodido a casa tentando acender um cigarro, mas preferiu não fumar naquela madrugada. Poderia ter sido empalado por uma gigantesca cruz de metal enferrujado, mas preferiu não comparecer a igreja — pois estava sem dinheiro. Poderia ter sido envenenado com um tempero dissolvido no traçado de cachaça, mas preferiu não ir ao bar. Poderia ter morrido, mas preferiu ficar nesse mundo. Ato de ironia cobrindo o cotidiano. Algumas madrugadas parecem eternas, relação entre o tempo e a sensibilidade de quem ainda está acordado tentando se apaixonar por Beethoven. E os gritos dos gatos atravessam as nove sinfonias.
A chuva serve para algumas pessoas banharem. A madrugada serve para alguns assassinos se esconderem. A Lua serve o tesão de quem entrelaça línguas. As estrelas servem como ponto de partida para astronautas suicidas. A escuridão natural da noite serve como proteção e conforto para os cegos. O frio serve outro gole de café, serve mais conhaque, dilata a fome de calor, encobre de pano o meu corpo e serve mais sofrimento solitário aos mendigos e cachorros desnutridos que vagam na rua.
“Está faltando estrelas...”
Há alguns anos que eu reclamo sobre isso durante as noites. Estou começando a acreditar que minha memória sempre foi mais estrelada do que minhas noites anteriores. Seria melhor do que admitir a morte dos brilhos que maquiam o céu. Melhor do que admitir que até mesmo as estrelas sejam peças descartáveis de um cenário teatral.
Parecem um teatro maldito as noites exaustivas no término de um festival de Rock, voltar solitariamente para casa e cruzar caminho com a oferta de uma obesa prostituta noctívaga. As ruas em noites infinitas são manicômios públicos a céu aberto onde, de forma áspera, agoniza a democracia de quem não tem casa, livros, paixões ou esperança.
A noite é onipresente, já que o Sol é limitado. A noite — minha noite — é o meu egocentrismo, já que ela é somente o alcance dos meus olhos. A noite verídica é tão infinita quanto eu gostaria de ser. A noite era uma criança quando eu era criança e a noite era realmente escura, e minhas mãos amedrontadas queimavam em faíscas palhas de aço numa elegância brilhante que eu ainda não entendia. A noite é minha solidão, meu sono, meu anti-sono, meu bocejo, meu café, e, possivelmente, o futuro da minha morte.

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