quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O EU QUE ESTAVA LÁ


O EU QUE ESTAVA LÁ

QUE ESTRANHO EU acordado hoje. Ontem à noite sonhara que nunca mais dormiria novamente. Noite em que eu pensava como imortal, e hoje estou na dúvida se penso. A fumaça do cigarro era como a tela de um cinema e minha cabeça, um projetor incansável cometendo elogios, sátiras, gargalhadas e sarcasmos contra o mundo, o meu mundo e também o nosso.

Por dentro havia um leve rancor me corroendo. Rancor sobre a distância ― em tempo e espaço ― que estou dos maiores olhos psicodélicos que eu já vi, sobre a ausência das mãos que escrevia as minhas cartas favoritas, sobre a saudade da voz que me acalantava entre outros beijos, canções de memória, mordidas, chupões, palavras costuradas sem métrica.

Sei que havia sorrisos, convites de danças, mais cigarros e mundos oferecidos, mas tudo me devolvia à nostalgia que parasitava a minha disposição por alguns segundos, e se interrompia com algum arranjo para sorrir. Sorriso maior ainda por não ser eu dono de falsos sorrisos, apesar de que tudo era quase sem motivos, apenas sentimentos escorrendo numa mesa junto com o resto de outras garrafas de baixo custo. Escorrendo com outras anedotas sobre política, sociedade e violência que empalou nossos ouvidos durante esses últimos dias, comentários sobre homens que se foram, mulheres que retornaram, fetos que não nasceram e velhos que persistem.

Carregá-los na cabeça às vezes tem sabor de toneladas de consciência, em outras apenas se ferem no papel.


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