domingo, 12 de dezembro de 2010

TODA ESSA GENTE ME OLHANDO ESQUISITO



...Sabendo que posso morrer...”, os fones emitiam ondas mecânicas para esfaquear meus ouvidos. Música, MATANZA. “... Não poderia ser diferente com toda essa gente me olhando esquisito...”, então um momento para a autocrítica. Eu estava numa livraria ― onde futuramente eu pretenderia pedir emprego ―, na seção de livros infantis, ocupando um sofá destinado a crianças. Vestindo calça jeans rasgada nos joelhos e um pouco suja, uma camiseta escrita CANNIBAL HOLOCAUST com estampa explicita de uma mulher empalada cercada por pessoas não muito normais comendo carne humana com a mão. Uma blusa de flanela desbotada por cima. Barba estranha, algumas unhas um pouco grandes, outras com marcas de mordidas, cabelo alto. Piercing na língua contornando lábios. Nos dedos uma tatuagem ilegível e malfeita. Nas mãos, um livro intitulado de O AMOR É UM CÃO DOS DIABOS do tal Charles Bukowski, que nunca ouviram falar. Sapatos brilhantes e bem engraxados (acho que é a única dignidade representativa que ainda me resta). No pescoço, uma corda que sustenta uma chave antiga. E toda essa gente me olhando esquisito.

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